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A arca das impermanências

Atualizado: 31 de mai. de 2025

Imaginemos, então, não uma catástrofe, mas uma evaporação. Não fogo, mas silêncio. Um mundo onde a linguagem não some com estalos ou fumaça, pois se apaga por dentro. As palavras ainda estão lá, deitadas em seus dicionários de poeira, mas ocas; os arquivos existem e não convocam mais ninguém. A memória não desaparece: apenas adormece em corpos que já não perguntam. Nesse vácuo, o que resta da literatura não são os livros, mas o gesto de escrevê-los, a insistência de deixar rastros mesmo quando ninguém mais os segue.

Essa hipótese, por mais absurda que soe, é apenas a continuação de um ciclo antigo, relacionado à história das páginas queimadas. A Biblioteca de Alexandria, dilacerada em múltiplas ocasiões por romanos, cristãos e muçulmanos, é o símbolo primeiro. Mas a chama que consome livros tem longa genealogia. A Biblioteca de Pérgamo, fonte do pergaminho, foi saqueada por Marco Antônio e entregue como presente a Cleópatra. A de Nínive, que preservava tábuas com os épicos da Mesopotâmia, desapareceu sob escombros. A de Nalanda, na Índia, com nove milhões de manuscritos budistas, foi destruída por Bakhtiyar Khilji. A de Córdoba, com seus 400 mil volumes, desapareceu após a queda do califado. A Biblioteca de Tianjin, durante a Revolução Cultural chinesa, viu seus livros jogados em rios. Em 1992, em Sarajevo, a Biblioteca Nacional foi bombardeada e queimou por três dias, enquanto a população tentava salvar páginas voando como pássaros feridos. Em 2003, no Iraque, a Biblioteca Nacional e a Casa dos Manuscritos se tornaram cinzas após o saque e a guerra. A Biblioteca do Congresso do Paraguai, a de Louvain durante a Primeira Guerra Mundial, a Biblioteca de Jaffna no Sri Lanka, consumida pelas chamas em 1981: todas vítimas de ódios organizados, fanatismos úteis e esquecimentos cuidadosamente cultivados.

Nesta fogueira de mundos, mais próxima de nós do que imaginamos, convoco um dos maiores poetas para me ajudar nas tarefas da impermanência.

Fernando Pessoa não escreveu em busca de imortalidade, mas como quem está de costas para o mar. Deixou um baú, arca de papéis, não apenas para ser aberta, mas para que as palavras se acomodassem nas profundezas. O Livro do Desassossego não é um livro: é um mosaico de ruínas na qual Bernardo Soares não narra, não conclui, não salva ninguém. Tudo que ele faz é apenas pensar para se perder. A intuição de Pessoa é que permanência é ficção, o que equivale a dizer metaforicamente que toda biblioteca pode ser queimada, que entre as palavras e a areia movediça há mais semelhanças que diferenças.

Mas há também outra forma de destruição, mais sutil e mais eficaz. A fogueira que não queima e não arde, mas que apaga palavras por deliberação. Sem fumaça. Apenas silenciamento. São os arquivos alterados, os livros suprimidos de catálogos, os autores cancelados, os parágrafos editados “para não ferir”. Uma espécie de purificação moral que não incendeia, mas “corrige” o passado como quem apaga cicatrizes da pele na esperança de apagar os traumas. Essa censura culturalmente sancionada, sempre revestida das melhores intenções, refaz o passado com a tinta de um presente asséptico. Nesse zelo por proteger, a memória se torna um espelho limpo demais, incapaz de refletir as manchas e mofos do tempo.

O escritor, cúmplice desse apagamento, cala-se não porque não sabe o que dizer, mas porque teme o reflexo do que viu. Há os que escrevem unicamente o que convém. Evitam ferir os olhos vigilantes dos colegas de livrarias com cafés superfaturados e bares falsamente despretensiosos onde o elogio circula como moeda de sobrevivência. Escrevem para pertencer, não para romper. E assim, tornam-se agentes da mesmice que fingem desprezar. São os autores que agem como espelhos decorativos da época. Em geral, padecem de um lirismo comovente, de uma disposição monocórdica que abarca um número limitado de sentimentos.

A essa covardia se soma uma estratégia oportunista: o assassinato de reputações como escadaria para o sucesso. É mais fácil ganhar notoriedade negando do que afirmando. A distorção cognitiva do mundo contemporâneo transforma qualquer nuance em afronta, qualquer hesitação em culpa e qualquer crítica em ataque pessoal. Basta uma faísca para incendiar a opinião pública e o escritor aprende muito rapidamente que a melhor forma de vender seu livro é queimar alguém com ele. A violência virou o único publicitário eficaz das obras e a polêmica o campo nutricional das biografias. O talento é saber incendiar sem sair chamuscado, ou então abrir seu pequeno curso de como vender incêndios.

Em tal cenário as distopias morrem de ingenuidade. Foram derrotadas não pelo otimismo, mas pela incapacidade de imaginar um futuro “mais pior” do que o presente. O colapso da linguagem como garantia de humanidade não estava nos seus roteiros. Ninguém previu que a sentença mais essencial da tradição teológica ocidental — “e o Verbo se fez carne” — pudesse ser dissolvida pelo advento de uma fala sintética, fabricada em servidores, treinada em padrões, sem carne nem alma. A tecnologia não nos transformou em máquinas: transformou as máquinas em algo misturado a nós. Logos-máquinas. E agora, a linguagem, essa última cidadela da consciência, que de certa forma pertencia unicamente ao “humano”, já pode não ser nossa. As distopias falharam porque não previram que no futuro as divisões mais antigas não seriam abolidas, mas apenas misturadas, mescladas em híbridos para os quais não temos nenhuma legislação, teológica ou jurídica, vigente.

Nesse universo, o que seria um erro editorial, um livro incompleto, dissonante, incapaz de “converter leads”, um autor que se esconde em heterônimos, que recusa uma biografia unívoca, um texto que não promete sentido, apenas companhia no vazio?

O paradoxo esconde-se justamente nisso: o que acaba sobrando por mais tempo é o que se recusou viver à luz fria de seu próprio tempo, não porque se exilou na aristocracia da eternidade, mas porque não converteu a palavra em objeto de uso, de mera finalidade. E isso inclui não converter a própria impermanência em uma tese acadêmica, fazendo dos esboços a própria obra, ou da prática a teoria. Diante da catástrofe da evaporação e do silêncio, não convocar exércitos barulhentos, mas adentrar silenciosamente na sombra lançada pela passagem do mundo, das coisas, dos seres, da vida.

Kazantzákis, autor que também perambulou pela vertigem, faz uma confissão em sua Ascese:


Não me importo se este mundo tem sentido ou não. Não me pergunto se as almas são imortais ou se morrem com o corpo. De onde vim e para onde vou? Nem quero saber. Eu estou aqui, e este ‘aqui’ me basta. Aqui está a luta, a alegria, o desgosto, a miséria e a glória. Lançado sobre a Terra como uma tocha acesa, não me interessa saber quem me acendeu: quero apenas que não se apague a chama.


Esse legado da não eternidade, essa aceitação da transitoriedade, é o centro de fogo da ausência. Não apenas uma arca de verdades objetivas, mas uma arca de impermanências, de ecos.

Talvez o único lugar atual onde seja possível desaparecer com dignidade.



A arca de Fernando Pessoa
A arca de Fernando Pessoa

 
 
 

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