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Amizade e olhar

Ansiamos pelo poder de encontrar a verdade e a possibilidade de nos inserirmos na história humana, porque nossa realização é a singularidade da vida-histórica, do mundo em nós. Crescimento é o irromper de nossa história na história, a aposta de que o que somos será lembrado em sua destinação. Nem sempre como glória ou posteridade, mas como aparição. Sabemos de nós, em algum momento, sabemos que o que chamamos de vida é uma aparição e que esta aparição tem um gesto, tem um rosto, uma destinação que se dirige aos outros e produz memória. São os outros que nos lembram, que nos dão a dimensão interior do que é ser olhado. Quando somos olhados, não apenas mirados, somos invocados a um estar-com, a um pertencer. Quando esse olhar nos é estranho, sentimos uma violação. Não podemos estar-com, não podemos pertencer ao que recusamos. Mas o que recusa em nós? Temos medo de perder alguma dádiva? Através do olhar, as possibilidades de acessar dimensões da condição humana nos são doadas como pequenos fios que criarão o rosto visível. Sem o olhar, mesmo que incômodo dos outros, o rosto não apareceria, seria sempre uma forma da recusa, uma massa fechada e inexpressiva. Cada olhar lança sobre nós uma semente relacional, uma isca para que venhamos ao mundo lentamente, serenamente ou bruscamente, segundo o movimento que cada olhar trará. Disso origina-se uma das primeiras amizades, a do olhar e ser olhado.

A que se destina o que visitamos quando vamos ao encontro? A amizade engloba sempre o rememorar e o ir-a-caminho de uma comunidade originária; por um lado, já experimentada, por outro, em espera. Essa primeira comunidade, iniciada com a mãe, é o olhar desmedido dos seres para o mundo e entre si. Quanto mais a visitação do olhar for repousada, maior será a amizade e beleza.

Quando se diz que a amizade é bela, diz-se não somente de uma virtude, mas expressa-se um fundamento. A amizade é a relação originária do ser com o cosmos em sua destinação. Todo o ser é um visitante e torna-se amigo da beleza através do olhar, este olhar do aí, do aqui-mesmo, da atenção. Ao olhar, o ser é inundado por essa amizade fundante e caminha. Se for abatido pelo esquecimento ou por uma ruptura, por uma contingência, por uma violência, então não apenas uma ferida em seu ente é aberta, mas uma fissura na relação com o cosmos. O esquecimento da amizade, a sua perda, é desenraizante porque afasta o olhar da paisagem da comunidade originária e interrompe o caminhar, a destinação. Pode o ser re-encontrar o caminho quando a amizade é abalada? Somente através da própria amizade, o que significa dizer que a amizade é a expressão fundante e quem se inunda dela e a realiza no viver está em graça, porque realiza uma "segunda criação" a partir do fundamento estabelecido da primeira. A amizade, nesse sentido, permite também outros nascimentos, já que sua relação com o cosmos é de abundância e não de escassez, ao mesmo tempo que é a relação que respeita a única pátria – a terrena-celestial –sem impor identidades nacionais, fictícias, e violentar a solidão necessária para que cada um possa se olhar com atenção.

Nesse dia, olho-vos com atenção e abro-me a escutar os vossos tempos, os tempos dos outros. O que dizem meus amigos nessa distância-perto? Que palavras escolherão para que falemos? Serão essas palavras as palavras escolhidas para sempre anunciar e mantener a comunidade originária?

O olhar do espírito me mostra que nela floresce um jardim em meio ao espinhoso. A amizade mantém possível o caminho até o jardim. Ela ampara. Ela aponta e não é deformada pela queda escura dos espinhos cada vez crescentes dessa era. Por isso ela é também refúgio, no sentido de refugere, "fugir para trás", ou seja, abrigar-se na comunidade originária, no primeiro olhar que nos uniu em amizade com o cosmos. Quem tem verdadeiramente um amigo poderá sempre estar abrigado na própria fundação e sustentar o olhar da atenção. Quem tem um amigo pode se lembrar de como olhar. Por isso visita-se o amigo, vai-se na direção dele, que é ir a caminho da destinação e ao mesmo tempo daquilo que é fundante e belo, sem que nisso haja repetição e monotonia, porque são dois caminhos que serpenteiam, cruzando-se, depois seguindo paralelamente, tornando-se a cruzar e que formam, em elipse, uma relação entre jardim e mundo.

A ausência ou destruição da amizade nunca é apenas questão de um ente e outro ente, mas sim um corte na história do olhar que tocou o ser e que agora gera sofrimento. Diante do sofrimento, quando há fuga, pode-se ser lançado no infinito agônico, pólo do mal infinito. Mas há, no outro pólo, a experiência da beleza – a amizade originária com o cosmos – que pode ser re-vivida no recordar. Lembramos das histórias da amizade e nos vivificamos, damos "corda novamente no coração", da mesma maneira que o corte nessa história é sentido como a parada desse coração que já não será capaz de criar novas memórias, ou seja, ele sente que em seu futuro não poderá recordar porque alguém deixou de olhá-lo, alguém se recusou a repousar o olhar sobre ele e tornou-se também indisponível para ser olhado. A expressão "não quero te ver nunca mais", nesse caso, é totalmente concreta. Estamos dizendo que não iremos mais olhar, que não queremos mais pousar o olhar sobre o outro e que não queremos mais participar das memórias que virão. Do mesmo modo, uma das expressões da dor da morte é o desaparecimento do outro, que se tornou indisponível para que nos olhemos mais uma vez. E não é curioso que ao velarmos um morto sequer tenhamos o sentimento de que o olhamos, embora esteja diante de nossos olhos? Podemos abrir à força as pálpebras e nada se produzirá, exceto a sensação de que a história de nossos olhares se encerrou ali.



A Trindade, têmpera sobre madeira, 142 cm × 114 cm, 1411 ou 1425–27. Andrei Rublev.
A Trindade, têmpera sobre madeira, 142 cm × 114 cm, 1411 ou 1425–27. Andrei Rublev.

 
 
 

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