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A que serve a escrita?

A colocação da pergunta a que serve a escrita, implica desde a sua enunciação um problema: o da servidão. Seja esta servidão direcionada unicamente à mão que escreve, ao sujeito, ao público, ao mercado editorial, às massas, etc., o que importa aqui é determinar a natureza de servidão a que o ato de escrever está submetido. Pode ser, em todo caso, uma servidão voluntária ou involuntária, pode mesmo ser uma ilusão de que está a serviço de uma causa quando, em verdade, está corroborando com outra. A servidão da escrita é, como toda servidão, difícil de ser delineada pois está emaranhada em concepções herdadas, em pré-conceitos que cristalizam a sua condição servil. Caso isso fosse diferente, a escrita seria “livre”. Porém, não há talvez palavra mais nociva que esta “livre” quando se trata da arte da escrita, pois é um lugar fictício onde por tudo caber, nada está presente. O que quer dizer, afinal, “livre”? Que se pode escrever o que se deseja? Que o papel aceita tudo? Que não há censura? Que o papel nos liberta? Mas de quê?

Todas essas perguntas, as quais interessa que cada um responda, mas que não serão respondidas aqui, levam a um ponto de origem relacionado à possibilidade do fazer. A pergunta, então, poderia ser diferente: o que a escrita pode fazer? O que também coloca a nós a pergunta sobre o que cada um pode realmente fazer. Quando tomamos consciência da limitação do fazer algo se abre em nós, mas raramente permanecemos nessa consciência. Surge então a nuvem da “liberdade”, a nuvem do “bom senso”, a nuvem da “realidade” e tudo retoma o curso habitual, isto é, o automatismo das palavras que não sabemos o significado mas que sustentam nosso vasto vocabulário de elegâncias sem sentido. As piores palavras talvez sejam essas que todos fingem compreender, que repetem sem nunca terem se perguntado o sentido (se é que elas possuem algum sentido) e que infestam os espaços onde a palavra é endeusada, onde a palavra ensina, onde a palavra pretende curar.

“Aceitar o mistério das coisas”, diz-nos Shakespeare no Rei Lear. Se me permitem um comentário eu diria que este poderia ser um modo sublime de abordar a servidão da escrita. Aceitação do mistério. Permanecemos assim no domínio espiritual, religioso da palavra. Não há profanação. Estamos dentro do templo. É uma atitude possível, que traz ainda a possibilidade de um êxtase, de sair para fora de si. Nesse caso, diria que a servidão da escrita é a de um escravo que encontrou sua bem-aventurança no enigma sagrado ou teológico da vida. Mesmo que não haja respostas, ele canta.

As objeções a essa atitude são as mesmas que podem ser apontadas para qualquer atividade de natureza religiosa: dogmatismo (só há um modo de fazer), elitismo (o templo é sempre hierárquico), charlatanismo (o sacerdote é surdo, não escuta o divino mas o ouro), moralismo (o bem e o mal são leis absolutas) e, por fim, fanatismo (imposição violenta do absoluto). Tudo isso pode estar presente na literatura, mesmo que ela fale em nome dos oprimidos ou deserdados da terra. Entretanto, quando a atitude permanece no enigma do sagrado, em abertura, então temos um acesso místico e a escrita é sentida como uma revelação.

Não tenho objeções a esse tipo de escrita, porque não é possível conjecturar sobre experiências de natureza mística. São místicas justamente por serem intransferíveis. Só podemos aceita-las ou não. O que interessa aqui é ressaltar que a servidão da escrita em relação ao mistério é uma das possíveis respostas à pergunta a que serve a escrita. E entretanto ela permanece sem nada nos dizer a respeito do que podemos fazer, porque relega o fazer a algo intangível e indefinível.

O que podemos então realmente fazer? Um gesto. A servidão da escrita é um gesto de desconfiança. Ela serve ao que desconfia em nós, à nossa singularidade. Só o que é singular em nós é capaz de desconfiar de nós. E se digo nós, não é para me referir ao universal, mas ao nós que constela todos os eus. Quando percebemos que toda a música de nossos eus vaga sem maestro, que é servil de associações involuntárias, emoções, clima, exterioridade, interioridade, memórias, sensações, bom humor e mau humor, etc., quando percebemos isto então podemos desconfiar da nossa capacidade de fazer e somente assim a pergunta se abre em sua inteireza e toda a convicção de possibilidade tem de ser eliminada como um fogo-fátuo na natureza. No gesto da desconfiança a possibilidade do fazer é retomada, porque libertou-se da tirania dos autômatos semânticos e existenciais. Nesse estado cada palavra aparece sempre como a primeira vez de uma palavra porque o que de fato ocorreu foi a criação de um novo centro de gravidade, situado agora em nossa singularidade.

É por isso que cada escritor orbita ao redor da mesma ferida (alguns dizem tema, mas um tema não é uma ferida; há feridas de mil temáticas, como há feridas monotemáticas). Não se trata de uma escolha arbitrária, mas da percepção espontânea ou gradual dessa singularidade. O gesto da escrita é, nesses termos, uma rendição. O escritor é sequestrado por sua singularidade e levado até os limites possíveis da linguagem. A partir desse ponto é que ele sente que pode fazer algo, isto é, re-escrever a história das palavras.

Cada obra dessa escrita servil da singularidade é sempre a reescrita de todas as mesmas palavras que já existem, porém, agora desnudadas, reveladas pela percepção de que nosso ser não passava de um autômato e que era um joguete dessas palavras. É a crença demasiada nas palavras que impede a maioria das pessoas de acessarem a potencialidade que cada uma delas reserva. Tomemos como exemplo alguém que nos ofende. Subitamente a palavra que escutamos passa a nos governar, porque acreditamos nela. E isso, em geral, rege a conduta de nossas vidas, como se em cada palavra houvesse uma única propriedade e que nada mais fosse possível extrair dela. Em termos da arte da escrita, não há nada mais pobre do que isso. São palavra usuais, cujo sentido nos domina e nos envia para o lugar habitual onde a maioria vive. São palavras inimigas da singularidade, porque a singularidade desconfia. Ela desconfia que as palavras possam se esgotar em meros significados. E em um estágio mais amadurecido a singularidade aprende também a desconfiar das metáforas.

Para alguém que está rendido à escrita, tanto faz se alguém diz idiota para nós, porque poderíamos trocar por bicicleta, tangerina ou abismo. Essa característica de quase frieza em relação à palavra não deve ser confundida com indiferença. Não tomemos o que exemplifico como um convite a masoquismos ou prazer em ser chamado de idiota, mas apenas como uma demonstração de como o gesto da desconfiança opera. Ele não ignora a palavra, mas a escuta, a espera, como escrito por Drummond com maestria:

 

Penetra surdamente no reino das palavras.

Lá estão os poemas que esperam ser escritos.

Estão paralisados, mas não há desespero,

há calma e frescura na superfície intata.

Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.

 

            Penetrar surdamente no reino das palavras; calma e frescura na superfície intata; sós e mudos, em estado de dicionário... Desconheço quem tenha abordado a relação com as palavras de modo tão pouco lírico, tão objetivamente, ao mesmo tempo que nos ofertando uma galeria de imagens precisas. A palavra encontrada pela singularidade não é uma pedra chutada à beira da estrada, é todo o caminho. Não é a estatística do peso médio de todos os seixos de um rio, mas é o seixo que nos chama a atenção e que pegamos em nossas mãos para sentir a finitude. Essa palavra ligada a nós pelo gesto é a palavra a que servimos.

            Como poderia a palavra da singularidade ser especular? Como o singular é refletido? Qual a dimensão de seu espelho, a matéria de seu espelho? Essas perguntas deveriam ser colocadas quando lemos com certa frequência que “a arte deve refletir os tempos”, como se sobre a singularidade pairasse uma obrigação coletiva de identificação. Embora essa identificação possa ocorrer, não me parece que haja nela qualquer obrigação ou dever, ou ainda, que ela seja a garantia da realização de uma obra. Se analisarmos períodos sombrios e totalitários, perceberemos claramente que é justamente poderosa e sobrevivente a arte que triunfou sobre a coletividade opressora, originada da potência da singularidade. O século XX possui numerosos exemplos do que pode a singularidade contra a força violenta que os totalitarismos imprimem nos sujeitos e, ao que parece, o século XXI terá ainda de se debater com essa questão, caso não queira que o fazer artístico seja substituído por slogans e parágrafos pedagógicos das boas maneiras.

            Ao mesmo tempo, é de certo modo evidente que algo é refletido no gesto da escrita. Talvez de maneira invertida (como a imagem no olho). Talvez através de um espelho antigo cujas marcas de outra época com seus fungos azuis se deixam visíveis. Talvez como uma miragem. De todo modo, o reflexo do gesto da escrita não me parece obedecer à imagem de uma suposta realidade partilhada por todos da mesma maneira. Até porque tal realidade, se ela existe, não é sequer questionada pelas pessoas, é dada como algo empírico, como um objeto típico, que serve pouco ou nada ao gesto da escrita, cuja qualidade é atraída por afinidades ao que é atípico e não passível de compreensão científica.

            Até certo ponto é possível que a ciência olhe para a arte e a tome por companhia. Porém, na bifurcação onde a singularidade aparece, a ciência deve se despedir. Não há o que fazer com a singularidade, pois ela é única. A singularidade do gesto não pode ser negociada. Tampouco pode ser imitada sem prejuízos. É justamente o evento de sua unicidade que permite o gesto. Fora da singularidade todos nos entendemos, como também se entendem os símios e artrópodes.



Nabokov caçando borboletas
Nabokov caçando borboletas

 
 
 

2 comentários


V
26 de fev. de 2025

Somos, como carcaça que somos, a servidão daquele "eu" que não se importa quem e o que somos. Apenas carcaça. E a singularidade, que quase sempre ou até mesmo sempre não é singular, se espelha num movimento singular para cada tempo e por um único espaço. E a carcaça continua servil. E aquele "eu" desdenha dos olhares idiotas daqueles que se julgam intérpretes da interpretação. E o "eu" nem busca naqueles trocentos verbetes a magia de seu infinito desdém pelo julgamento do que fazer.

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E.A. Meneghin
E.A. Meneghin
01 de mar. de 2025
Respondendo a

Muito agradecido pela leitura, Neu. Seguimos em diálogo.

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Eduardo Augusto Perissatto Meneghin

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