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As impurezas da verdade

Com respeito aos amigos e amigas artistas, confesso que não tenho nenhum sentimento de fim do mundo quando se trata da inteligência artificial. Talvez eu sempre tenha desconfiado que muitas inteligências sejam artificiais, plagiadoras, descaradamente corruptas e beneficiadas pelo roubo. O que vejo de novo é a facilidade e disponibilidade que a inteligência artificial oferece para quem quiser viver do embuste. E não sejamos hipócritas: se houvesse um índice de trambiqueiros, o Brasil ocuparia uma posição mais elevada que o índice de seus analfabetos. Nesse sentido, em terras como a nossa, a IA é anunciadora de más-notícias, ou melhor, portadora oficial das fake news — para usar um termo da moda, caro aos progressistas.

Acho justo defender a inteligência analógica, não por mero romantismo e nostalgia, mas porque há elementos nela que sempre nos escapam, não porque a perfeição não existe, mas justamente porque alguém resolveu instituir a sua existência. Sem um ideal de perfeição as máquinas não despertariam o encantamento e o temor que têm despertado ao longo dos séculos. Não acho que a IA seja exceção. Tampouco sou ingênuo de achar que ela é a mesma coisa que um eletrodoméstico.

Acontece que as máquinas não sabem o que é escrever tremendo. Não conhecem o silêncio devastador depois de uma rejeição. Nunca sentiram a vertigem da pergunta: "e se nada do que escrevo for suficiente?"

Fernando Pessoa, em seu livro feito de fragmentos e ausências, já intuiu que viver é um ato sem garantias. Ele escreveu em voz quase inaudível: "Tenho que escolher o que detesto – o sonho, que a minha inteligência odeia, ou a ação, que a minha sensibilidade repugna..."

Talvez, como Pessoa, quem escreve esteja condenado a esse espaço entre o sonho e a ação.

As máquinas não sofrem essa condenação. Elas não hesitam, não se ferem. E é justamente por isso que elas jamais poderão criar com o grau de impureza que existe em nossa verdade, porque toda criação verdadeira nasce do erro, da vergonha, da insistência tola, da finitude ingênua — e não da perfeição mecânica.

É paradoxal que sejam as impurezas da verdade as criaturas capazes de nos dar as mãos enquanto o mundo se esfacela discutindo a pureza das raças, das identidades, dos povos, dos países, das máquinas...


foto de Wilhelm Gunkel
foto de Wilhelm Gunkel

 
 
 

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