Entrevista com Alberto Lins Caldas
- E.A. Meneghin
- 9 de jun. de 2025
- 10 min de leitura
Essa é a primeira entrevista de uma série de entrevistas que pretendo realizar e deixar disponível no blog. A escolha das pessoas é arbitrária, participa do meu interesse, das perguntas que eu gostaria de fazer, das conversas que gostaria de ter e que ainda não existem. Os convidados e convidadas escolhem o modo como gostariam de ser entrevistados: por perguntas escritas, por áudio ou por vídeo.
Alberto escolheu ser entrevistado por escrita, então mantive sua grafia, suas escolhas, sem nenhuma edição.
Ao final de cada entrevista haverá sempre alguma mostra de texto, arte, material criado, gentilmente cedido e escolhido pelos participantes. Nesse caso, teremos três poemas de Alberto Lins Caldas (Recife-PE, 1957).
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E.A.: Primeiramente queria agradecer, Alberto, por aceitar realizar essa entrevista. Ela é parte de um projeto que surgiu a partir de uma inquietação minha com relação ao modelo das entrevistas que andei lendo recentemente. Tenho achado elas muito previsíveis, cautelosas em relação às inquietações e conflitos, quase como se fossem uma forma de publicidade para o entrevistado. Aqui tentaremos ir por outro caminho. E para isso quero começar perguntando: qual é o seu maior interesse na vida? Esse interesse (se houver) foi realizado? De que modo?
A: Literatura. Literatura como arma de luta contra o profundo horror
O sentido central da minha vida sempre foi literatura, isso que se separa do “real” para enfrentar, criar, formas-devires que desafiam as formatações que se impõe como realidade ou real. Formas “fascistas” de se escolher, no caos, entre as coisas e as palavras, uma forma militar de configuração como a forma, a história correta, boa, escrita numa gramática recomendada, a mesma gramática que todo o conjunto obedece, deve respeitar, sem resistência, apenas com ridículos desvios regionalistas ou bairristas. Lutei e luto por uma literatura fora dos mercadinhos e festas do desespero por reconhecimento e confirmação do mesmo. O que só busco só se produz numa perspectiva grotesca/alegórica, fora das escolas/quarteis/mercados, onde é possível fazer com que a beleza, o pensamento, a sensibilidade, a revolta não sirvam ao senhor, não sejam presentes ao patrão, esse presente sempre produzido com tanta alegria e emoção em toda a “história do brasil”. literatura enquanto “luta contra o profundo horror” sem se tornar politiquinha, novela de televisão ou uma fraude escrita no “melhor português” por quem “escreve bem” para “leitores”. O leitor, esse embuste terrível que nada tem a ver com literatura, que não se faz para leitores, mas numa guerra em tempo largo, radical e autofágica, num teatro onde o leitor não é convidado jamais. A universalização do leitor faz parte da destruição da potência nietzschiana da literatura e da filosofia, servindo apenas na “formação do trabalhador”. O “profundo horror” não se deixa tocar por criaturas da culpabilidade, da cumplicidade, da servidão.
E.A.: Houve algum momento em sua vida que considera crucial?
A: Com relação à literatura, foi um momento específico quando, de repente, em 1988, depois de muitos anos escrevendo coisinhas impotentes e ridículas, o mesmo aguado, comecei a escrever algo que não estava, não constava em nenhuma formação, experiência ou lugar, em nada do que eu sabia ou imaginava, enfim livre do leitor em mim e do fantasma do que deveria ser um escritor, sempre um escrivão-leitor-padre e um “livro”. Daí para frente esse momento só fez se tornar mais libertino, mais amplo, mais radical. Sem saber havia entrado na vala entre as palavras e as coisas, no devido atrito com as margens.
E.A.: Certa vez ouvi Claudio Willer dizer que o Brasil oscilava entre a aceitação de que passamos pelo processo de modernização e a negação desse processo, o que se expressaria numa arte oscilante: momentos em que a experiência moderna está visível e momentos em que há uma valorização de certo regionalismo. Concorda com isso? Se sim, acha que sua escrita estabelece qual posição nesse contexto?
A: Tal posição exige que se aceite a “história do brasil”, a “história da literatura brasileira”, “modernismo”, “regionalismos”, escondendo que isso que chamam brasil não passa de uma monstruosa “realidade nazista”. Cada conceito desses exige uma aceitação naturalizante do conjunto. Exige a aceitação, em primeiro lugar, renunciar a indignação, o esquecimento do horror, como se tudo fosse uma história do senhor, para o senhor, como senhor, esse mundo sempre cheio de homens até nas palavras. “Processo de modernização”, “arte oscilante”, “a experiência moderna”, “valorização de certo regionalismo”: não há esse contexto, há essa grade de submissão e esquecimento e só assim a “história da literatura brasileira”, só assim a própria “literatura brasileira” funciona. Não, não é por esse caminho. Todos os que escrevem nisso brasil, por principio, fazem o papel dos bons bombeiros, dos bons policiais, dos bons militares, dos bons políticos, dos sacerdotes, sempre oferecendo esse bom-bombom: contribuem perfeitamente para um lugar onde o nazismo e o cinismo nazista criou algo novo e furioso, não só a continuação do brasil enquanto nazismo, mas uma coisa que não poderia existir, sendo uma monstruosa contradicção e impossibilidade: uma “literatura nazista”, a aceitação subserviente do “real enquanto o aparecer assim dessa maneira para todos”. A “Literatura brasileira” é um locus de renovação, reposição, retroamilentaçao da “Literatura brasileira nazista”. A oscilação existe só entre um escravismo pre-nazista e um nazismo plenamente aceito, exigindo apenas uma maior “participação dos desgraçados”.
E.A.: Como enxerga a literatura no contexto brasileiro contemporâneo?
A: Literatura de funcionários públicos, dos vários matizes da classe média, letrados de todas as necessidades, de “pobres”, de “subjugados”, de “segregados”, de religiosos, regionalistas, bairristas, síndicos, racistas, tentando “reconhecimento do senhor”: sempre foi e é uma coisa muito triste e, como é e sempre foi triste, despotencializada, um carnaval específico e sem graça numa ânsia profunda da aceitação geral dos seus desejos. Só mais uma coisinha fraca, insossa, vergonhosa e portuguesa (de uma maneira ou de outra sempre portuguesa demais, esse horizonte intransponível pelos servos de sempre). O criar da Literatura brasileira sempre foi subserviente a tudo que é profundamente contrário a tudo que possa ser arte, literatura, pensamento, resistência radical, outra vida, outro desejo e sensibilidade libertina. Nem a língua é livre, é só a língua dos outros.
E.A.: Hoje vive em França. Por qual motivo mudou de país?
A: Porque, velho, fraco, com a chegada explícita do fascismo, fui tomado pela urgência, sem o gosto das antigas lutas politicas, universitárias, literárias, absolutamente exausto por não haver jamais uma luz no fim das guerras, sem tempo a perder. Ao iniciar mais um fascismo explícito fugi, como velho, fraco, doente. Continuei apenas exercitando o que chamo “poema”, um espaço literário bem distante da poesia, mas bem próximo do que chamo ficção, que me fizeram avançar muito na minha posição e direção. Só aí pude enfrentar os pequenos horrores do grande horror. Isso não é nada. Sem uma comunidade indignada, em luta sem trégua, não há literatura, apenas o produto de escrivães, escrivãs e o que for devido. No entanto, mudando de lugar, não mudei pelo ou para o lugar, entrando num processo de adaptação ao novo ambiente. Não falo francês, não leio francês, não escrevo em francês, não penso ou sonho em francês e em nenhuma outra língua que não seja “a minha língua”, a que configurei e a que exige uma vida específica, linhagens de escritores e livros pessoais. Bem mais próxima de uma língua de cangaceiro do que a dos pequenos seres de classe média.
E.A.: Recentemente li um livro de entrevistas com Cioran intitulado Um apátrida metafísico e gostaria de reformular umas das perguntas: Em qual figura da História você se reconheceria?
A: Como minha formação acadêmica-profissional é em História, sei que não existe história ou História (uma dimensão de conhecimento própria da educação para o servo e uma dimensão objetiva ilusória e ridícula, pretensão dos “senhores de escravos e proletários” a uma universalização ou nacionalidade impossíveis). A existência é tão múltipla, tão fragmentada, arrebentada, britada, moída, pulverizada, triturada, despedaçada, quebrada, esfacelada, esmigalhada, espatifada, rebentada, estilhaçada, desintegrada que não há como ad-mirar alguém ou algo no universo da vida comum, escolher, não há como mudar nada, não há nada a acrescentar: mudar e acrescentar são ilusões perversas de uma fatia tão minúscula do que chamam existência que tudo se torna uma exaustão de sisifo e a mudança só seria no papel, porque a História é o resultado de um tipo de escrita senhorial; a história, só pode ser mudada no papel, enquanto a vida se dissolve no enfrentamento, na resistência, na revolução, essa que só se aproxima como farsa, sempre mediada pelos odiosos militares, esses minusculos vermes. O que se usa aos pedaços é a forma de ser da vida e da cultura, monstruosos plágios mornos, isso é viver, isso é criar. Esse patético é o brasil.
E.A.: Embora eu mesmo desconfie dessa pergunta, quero fazê-la por curiosidade: quando se trata dos seus contemporâneos, quais eram as principais inquietações e no que elas se diferenciam das inquietações de hoje?
A: Minhas inquietações não são literárias ou filosóficas, mas politicas, como enfrentar objetivamente o existente: a literatura é uma maneira objetiva de enfrentar a vida, essa mesma que ela não é representação, mas potências em redes de superação. Como enfrentar devidamente as perspectivas naturalizadas sim, constituem minhas preocupações filosóficas-literárias, minha atividade essencial. Como compor, como saber, como sentir, como enfrentar essa forma final, a forma escrita necessária para dizer e entrar em guerra com essa coisa que as formas apontam, o que se delineia enquanto constructo necessário. Isso não parte dos contemporâneos, mas de um envolvimento maior para que o resultado seja literatura, seja uma outra coisa, outra arma de compreensão e vida, exatamente o que os contemporâneos não estão preparados para enfrentar e propor e mesmo se tivessem não interessa. A literatura não é algo coletivo nem para a coletividade. É somente para rasgar, reconfigurar o real, a coletividade sem deixar ponto de equilíbrio.
E.A.: O que acha do mundo atualmente?
A: Absolutamente maravilhoso. Nazismos mais explícitos do que o de costume, uma estupidez deliciosamente instigante, um vazio mais pesado do que chumbo, uma imobilidade realmente fundante de qualquer possibilidade realmente literária, a que não se entrega a contar-história, um se entregar num sistema, num grupo, nos rituais de uma tribo de apoio ao poder, ao mesmo, ao esperado.
E.A.: Carrega consigo alguma definição de literatura?
A: Palavras que só existem enquanto o que desmobiliza a língua (esse monstrinho fascista que chamam de “língua portuguesa” e sua “gramática portuguesa”), instaura outro dizer, outra maneira de dizer, outras perspectivas, torções em busca de outro não; palavras que não representam a multiplicidade, não são cúmplices nem fiadoras do caos adestrado, mesmo sabendo que a “literatura brasileira” e sua gramática, a “gramática portuguesa”, não pode, não consegue, não quer, não aceita um dizer radical, um dizer que não diz, um dizer construtor de formas contrárias ao viver, pensar, desse existir nazista disso brasil, disso literatura brasileira, disso gramática portuguesa, uma sociedade antes de tudo antidemocrática. A literatura para existir “aqui” precisará antes e necessariamente encontrar arsenais, campos que se continuam libertos, por serem libertinos, aquele-aquilo que se libertou e, liberto, iniciou as guerrilhas que se tornarão literatura.
E.A.: Sua poesia tem uma forma bastante peculiar (na ausência de um termo melhor), seja no ritmo ou na grafia. Conseguiria descrever um pouco como foi o processo, o desenvolvimento dela até hoje? Faço essa pergunta não como algo fechado, como se a poesia tivesse chegado a um lugar e estivesse calcificada, mas o contrário, buscando descrever o caminho que ainda está trilhando.
A: O que seria “minha poesia” não me agrada, é pouco, é um só reflexo incompleto da “prosa”. Como sei como surge, se organiza e a razão dela existir (exercícios da prosa), não considero algo livre, autônoma, plena como exige qualquer poesia. Não há um sistema literário, poético, filosófico independente, aceito que se considere como “poesia” por estar ali vestígios do trabalho literário de contos, de novelas e romances. Mesmo sendo rascunhos, levam em cada poema, pedaços dos fundamentos literários, pedaços das teias armadas para “quase fazer sentido” noutra região da escrita. O que chamo poema, não poesia, é o lugar da minha experiência literária, onde ética, política, filosofia e vida se articulam. O campo de batalha inicial, o lugar mais próximo com o “outro”, o estranho, o aberto, o aperto de mão, o adeus, o deixa-pra-lá, a construção dos materiais, instrumentos, armas, linguagens que se apontam para o alvo em consonância com sua forma de existência, sempre bem distante do “escritor” ou do “poeta”.
E.A.: Odeia algo? Ama algo?
Pode parecer que odeio o brasil e a literatura brasileira, mas não é verdade. Odiar é uma palavra muito própria do mundo do senhor e seus escravos, mas os verdadeiros escravos não odeiam seus senhores, eles desejam apenas um almoço, um jantar com a doce carninha dos senhores, que seriam criados em galinheiros para esse fim. O que seria um “grande avanço” na culinária e na “literatura nacional”. Enfim, odiar jamais. Isso sempre é possível deixar para os que tão bem sabem exercer essa forma mais fácil de existir e fazer parte.
E.A.: Se lhe fosse dada a chance de pronunciar suas últimas palavras, quais seriam elas?
A: Esse café está perfeito.
E.A.: Quer dizer algo que nunca teve a oportunidade de dizer?
A: Sempre disse tudo que me foi possível sentir, produzir, criar. Não morrerei entalado nem infeliz, muito menos cúmplice do silêncio, do silenciamento. Mas obrigado por abrir um espaço para isso.
05/06/2025
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Três poemas de Alberto Lins Caldas
fechar os olhos
● nunca foi sobre abrir os olhos ●
● é bem mais a dor isso q se aninha ●
● indo violenta demais entre ossos ●
● entre carnes q não se sabem mais ●
● é sobre qualquer vida q se desfaz ●
● distancia entre as mãos e o ventre ●
● enquanto a noite não nos consome ●
● sussurra sim agora é muito tarde ●
● fecha os olhos esfria deixa seguir ●
● conclui tuas alegrias tristes vai ●
● deita dizendo sim agora é tarde ●
● sempre foi sobre fechar os olhos ●
o destino desse caminho
● é so uma raposa ●
● nada menos nada mais q uma raposa os passos ●
● mordidas no q so uma raposa consegue morder ●
● depois esse pelo esses cabelos espalhados ●
● pela vereda como se alguma louca ruiva ●
● corresse se descabelando nua e louca ●
● ate chegar a essa toca com odores ●
● de raposa da altura das raposas alem disso ●
● os rastros são de raposa jamais dos cães ●
● q perseguem raposas ate q exaustas elas ●
● desabem morrendo de tristeza e desrazão ●
● por enquanto elas as raposas devoram ●
● crisantemos como chocolates amargos ●
● é so uma raposa ●
miura entre as pernas
● arco com todas as dobras ●
● multiplico as retas os cubos deixo ●
● todos os multiplos de dois e recebo ●
● de coração tudo q se multiplica e ataca ●
● como um miura entre as pernas do toureiro ●
● arco com todas as dores ●
● como se fosse a unica forma de existir ●
● sem dormir sem respirar inda assim é certo ●
● acordar indo em direção ao horror com alegria ●
● com certeza indo tirar a morte pra dançar ●
● arco com todas as sobras ●
● isso q se fecha como um animal marinho ●
● entre abismos sonhando desertos profundos ●
● acordando assim q a agua se encrespa e fere ●
● como um miura entre as pernas do toureiro ●




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