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Nos lugares escuros da sabedoria

O livro de Peter Kingsley Nos lugares escuros da sabedoria propõe uma revisão radical da figura de Parmênides, habitualmente lido como o fundador da ontologia ocidental. Longe de ser o pai do racionalismo estéril, Parmênides aparece, segundo Kingsley, como um homem integrado à tessitura sagrada de seu tempo: curador, poeta e legislador. Não um metafísico no sentido moderno, mas um iatromantis — vidente-terapeuta, espécie de xamã helênico que habitava as bordas entre mundos.

Seu poema, muitas vezes reduzido a um proêmio lógico, é reconstituído como um vestígio iniciático. A narrativa do jovem conduzido por éguas até os portões do Dia e da Noite não é alegoria, mas rito: uma descrição precisa da incubação, prática extática presente nos cultos apolíneos da Grécia.

A incubatio, termo que atravessa o silêncio dos antigos templos, consistia em deitar-se em um espaço consagrado (geralmente cavernas), em suspensão sensível, à espera da revelação. Não se tratava de buscar respostas por meio do raciocínio discursivo, mas de submeter-se a um tempo vertical, onde a alma, esvaziada de volições, tornava-se permeável ao que excede.

Neste sentido, Parmênides não “afirma” o Ser — ele o contempla em estado de suspensão. O Ser não é objeto de definição, mas experiência de desvelamento. A via da Verdade (alétheia) é, para o iniciado, um modo de presença que só se torna acessível após o colapso desencadeado pela prática extática.

Giorgio Colli, em sua genealogia da philosophia perennis, intuiu com precisão esse desvio inaugural. Para ele, os primeiros pensadores gregos, Heráclito, Empédocles, Parmênides, não eram filósofos no sentido acadêmico, mas portadores de uma sabedoria órfica, expressão enraizada no êxtase, na adivinhação, na experiência transformadora do sagrado.

A separação moderna entre pensar e ser, entre corpo e linguagem, entre ciência e mito, não existia nesses pensadores originários. Pensar era, para eles, uma forma de morrer: morrer para o tempo horizontal da pólis.

Parmênides legislou não através da racionalidade, mas porque escutou. Suas curas são devedoras do silêncio. E sua escrita em versos, longe de ser uma escolha arbitrária, mostra-nos que o logo poético é o único capaz de sugerir o indizível ― daí o caráter encantatório, os sons de flauta, as repetições e sentenças paradoxais e obscuras.

Nesse contexto, a figura de Apolo, central para o universo de Parmênides, exige ser revista. Nietzsche, em sua célebre oposição entre o apolíneo e o dionisíaco, nos legou uma imagem cristalina e talvez simplificada de Apolo como o deus da forma, da medida, da racionalidade luminosa. Mas o Apolo que fala nos templos de incubação, o Apolo que inspira os iatromantes, é de outra ordem.

É o Apolo sombrio de Delfos, o deus dos enigmas, da ferida que cura, da revelação que oculta, dos oráculos, da peste, da profecia e também da loucura. Não da loucura desregrada, mas daquela que invade o homem como um fogo sagrado: a mania apolínea, que purifica e transforma. A “loucura do Sol”.

Platão já o sabia (e o autor mostra como Platão se apropriou desse saber): entre as quatro formas de delírio divino (mania), a profética, de Apolo, era a mais nobre. Kingsley recupera esse dado esquecido: Apolo não é o patrono da racionalidade cartesiana, mas o deus de outros excessos, como o da lucidez transbordante. Ele reina tanto nos picos ensolarados quanto nas cavernas subterrâneas. Sua verdade poderia ser descrita como incandescente.

Nos lugares escuros da sabedoria é um livro muito bem escrito, diria encantador e que provoca uma estranheza inicial em quem está habituado ao jargão técnico da filosofia, já que o escritor não apresenta suas teorias com notas, citações e trechos. Ele tece cada passagem como uma narrativa na qual as descobertas sobre Parmênides são apresentadas gradativamente. Então no final, somente no final, ele coloca dezenas de referências que vão das fontes primárias dos textos filosóficos até as descobertas arqueológicas que sustentam o que está em seu livro.

É parte dos pesquisadores que expandem a visão eurocêntrica da Grécia como fundadora de um mítico Ocidente, mostrando desde o início que as fronteiras no Mundo Antigo não eram demarcadas como nós as concebemos hoje, havendo intercâmbios com outros povos, etnias, num processo muito mais descentralizado que unificado, e também muito mais religioso e místico do que se costuma dizer. Nesse sentido, Kingsley junta-se a outros como E. R. Dodds (Os gregos e o irracional), Thomas McEvilley (The shape of Ancient Thought), o já mencionado Giorgio Colli (O nascimento da filosofia, A Sabedoria Grega) e Alberto Barnabé (Hieros Logos: poesia órfica sobre os deuses, a alma e o além).



Apolo kouros, 490 A.C.
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