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O psicólogo como sacerdote da alma domesticada

Vivemos na era dos especialistas e do afeto sob vigilância. A dor, antes oráculo ou presságio, tornou-se um dado clínico; o sofrimento, que outrora evocava o trágico, agora é traduzido em escalas, gráficos e checklists de humor. No centro desse novo culto da sanidade ergue-se uma figura sutil e poderosa: o psicólogo, gerente da alma.

Ele ocupa o lugar que foi do confessor, do xamã, do poeta. Mas onde antes havia ambiguidade, agora há protocolo. A escuta se tornou processo e o abismo virou planilha. O desejo indomado, o ciúme sem razão, a melancolia sem forma: tudo precisa se ajustar aos contornos de uma palavra-chave, de um rótulo, de um código, de algum ambiente com luz de farmácia.

E se os sintomas escapam, há sempre um story com legenda acolhedora, um vídeo de trinta segundos com conselhos embalados em lo-fi, ou uma nova síndrome recém-nomeada para dar abrigo ao inominável. O mal-estar não pode mais ser vivido em sua condição ou com um pouco de silêncio: deve ser pedagógico e monetizado.

Ao contrário da tradição mística, que buscava nos excessos do sentir uma via de revelação, a psicologia moderna tende a normalizar. Há um ideal oculto de estabilidade, funcionalidade e adaptação. Como nos lembrou Pessoa, "a decadência é a perda total da inconsciência", e talvez o psicólogo, ao tentar curar a dor, sem querer nos cure também da vertigem, esse traço divino que nos diferencia do rebanho.

A crítica, pois, não é à clínica, mas ao culto. O culto da sanidade. Da transparência emocional. Da felicidade bem regulada. Da vida “com propósito”. O psicólogo, quando esquece o abismo e se torna gestor da subjetividade, torna-se um símbolo do afeto guiado por diretrizes: alguém que traduz a angústia em linguagem funcional, mas que esquece que há dores que só se curam por excesso, e não por correção.

Não é preciso dizer ao leitor que nem todos os psicólogos são assim e nem dizer que precisamos de menos psicólogos. Isso tudo seria de uma enorme estupidez. Da mesma maneira que é estupidez achar que o humano poderia ser reduzido a um projeto, como se fosse possível aparar as arestas desagradáveis rumo a um tipo ideal.

Naufrágios e coisas incuráveis fazem parte da vida. Jogá-las fora pode ser tão perigoso quanto acreditar em quem faz dancinhas de tik tok para encher consultórios ou fala com uma voz tão doce e falsificada que nos passa a impressão que está tudo sob controle.



Foto de Sasha Freemind
Foto de Sasha Freemind

 
 
 

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Eduardo Augusto Perissatto Meneghin

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