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O reino de Buzunga

Dois amigos velejavam e acabaram desembarcando em uma ilha aparentemente deserta. Pouco tempo depois são capturados por habitantes mascarados e levados até um tipo de julgamento onde um deles é questionado:

Buzunga ou morte?

Sem saber o que significava a palavra buzunga e na esperança de se salvar, ele responde:

Buzunga.

Então o homem foi amarrado a uma árvore e uma fila de homens colocou, um a um, o pau em seu cu enquanto repetiam jargões incompreensíveis.

Em seguida a mesma pergunta foi feita ao outro amigo que assistia, atônito, à cena de horror:

Buzunga ou morte?

– Morte! – respondeu sem hesitar.

– Está bem. Mas primeiro Buzunga! – sentenciou o juiz, enquanto o homem era amarrado ao tronco.


Essa anedota expressa não somente o sentido mais habitual de uma condenação prévia (o julgamento é encenado, a sentença já estava definida), mas o que os regimes totalitários têm de mais nefasto: a mentira. Embora eu ruborize um pouco ao usar essa palavra quase ingênua — mentira —, como se tivesse sido retirada da conversa com uma criança de cinco anos, é a mais perfeita expressão do que gostaria de dizer. A palavra mentira, redonda e opulenta versus a dietética fake news.

Sem a mentira nenhum totalitarismo poderia sobreviver. Ela é o seu verdadeiro coração, as veias, o sangue e a gordura. Desde a expressão da mentira no âmbito institucional, passando pelas mídias, até o âmbito pessoal, nas relações estabelecidas entre as pessoas, nas delícias que são desenterradas nos divãs da psicanálise e, por fim, com elas mesmas. Todos mentem e por todos os lados, é a mentira e seus discursos escapistas e relativistas, sua aura acadêmica e burocrática, seu perfume contra toda objetividade que passam a mediar as relações, tornando cada um que não se insurge contra ela um cúmplice. 

O poder da mentira é a conversão da vida social em um monólogo coletivo, na qual todos são obrigados a repetir jargões e passam a escutar somente jargões. Até mesmo as acusações passam a ser normatizadas a partir de jargões e aceitas como denúncias. Mesmo supondo que se pudesse comprovar judicialmente alguma inocência, o que se poderia fazer? A reparação não tem a mesma eficácia que a destruição operada pela mentira, porque a mentira é o valor da sociedade totalitária e gradativamente ela passa a fazer parte de seus rituais. 

Nos regimes totalitários todos sabem que qualquer um pode ser punido, mesmo que não tenha feito nada. Aliás, justamente por não fazerem nada, por não terem mentido como se esperava é que são punidas. Ou seja, a mentira tem um valor de troca, de sobrevivência. A mentira, assim como a técnica, tem eficácia. Ela é capaz de unir idólatras em seu nome. E sua maior eficácia é quando todos passam a mentir e posteriormente a formar as associações de mentirosos, cujo intuito é fortalecer ainda mais o espírito mentiroso pela coerção dos números: "Somos trezentos mil mentirosos reunidos em torno de uma boa intenção... Como poderemos estar errados?"

Ou ainda pelo velho espírito de identificação na qual o grau de identificação é medido pela especificidade dos membros. Quanto mais específica a causa, o fenótipo, o gênero, maior a capacidade de identificação. Não porque haja concordância interna entre cada um dos associados, mas pelo simples motivo que é mais fácil mentir quando um grupo está na retaguarda pronto para acreditar. Trata-se somente de eficácia. 

Na anedota, ao oferecer a opção entre Buzunga ou morte oferece-se ao julgado a sensação de uma escolha, mesmo que ela não signifique escolha alguma. A sensação é eficaz. E, por fim, os que morrem é porque escolheram morrer, já que poderiam ser "somente" enrabados. Há uma diferença, mas o questionamento do valor dessa diferença é intencionalmente suprimido. Não é melhor, acima de tudo, viver? E por acaso não será cumprida a sentença de morte, independente do que se passará até lá?

É o que comumente se pensa porque, assim como na anedota, acredita-se que as escolhas não sejam armadilhas. Que o nosso algoz cumprirá os termos de sua sentença, até que se percebe que ele, embora envolto no ritual de um julgamento, opera unicamente pelo poder que lhe foi conferido. O poder de agir pela mentira.


Foto de Ronan Furuta
Foto de Ronan Furuta

 
 
 

2 comentários


Convidado:
27 de fev. de 2025

Manoel de Barros, quando perguntado porque escrevia, respondeu, Para ser amado.


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E.A. Meneghin
E.A. Meneghin
01 de mar. de 2025
Respondendo a

Curioso. É um poeta que li muito pouco, mas fiquei me perguntando, Ser amado por quem?

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