O último contra o penúltimo
- E.A. Meneghin
- 8 de abr. de 2025
- 4 min de leitura
Recentemente tive o desprazer de acompanhar uma polêmica que envolvia pequenas editoras (intituladas independentes) e a autora que iniciou a polêmica relacionada aos autores iniciantes, contratos editoriais, vendas, etc.
Aparentemente uma discussão legítima — talvez necessária —, mas que adquiriu os contornos de quase todas as polêmicas entre as pessoas que se encontram naquilo que René Girard chamou de mediadores internos do desejo, isto é, pessoas que como eu e você não se encontram num lugar inatingível enquanto modelos de desejo. Para ser mais claro, estamos distantes de Proust, de Cervantes, Dostoiévski, Clarice Lispector, Virginia Woolf, Machado de Assis — modelos de desejo, figuras claramente imitadas, reverenciadas e elogiadas a céu aberto; ao passo que estamos muito próximos de todas essas figuras envolvidas na polêmica que referi. Entre eu e qualquer pessoa iniciante na escrita ou mesmo pouco relevante, mas publicada por uma "grande editora" não há tanta distância assim. O que existe é uma rivalidade, porque a rivalidade é uma função da proximidade: somos mais ameaçados por pessoas que desejam as mesmas coisas que nós do que por aquelas que não desejam.
Quando entrei em contato com a teoria mimética comecei a entender porque em saraus, exposições de arte, bienais, feiras literárias, havia sempre uma sensação estranha na maneira como as pessoas se comportavam, como se uma tensão pairasse abaixo da pele. Descobri com Girard que se tratava da inveja — o sentimento que ninguém reconhece em si, mas que está no centro da rivalidade. Como todas as pessoas reunidas, de modo geral, desejam o reconhecimento, serem lidas, serem aclamadas, as pessoas que sobem um degrau nesse sistema passam a ser invejadas, não de maneira frontal, mas veladamente, a partir de comportamentos obscuros, calúnias e difamações variadas. Qualquer pessoa que já transitou em algum ambiente artístico certamente vai compreender o que estou dizendo: anda-se sob o fio da navalha.
O que acontece — e agora retorno à polêmica autora versus pequenas editoras — é que toda a massa de pessoas não publicadas, aspirantes à escritores, iniciantes, diletantes, escritores e escritoras de fim de semana, estão imersos dentro do mundo da mediação interna, ou seja, estão próximos de seus modelos no tempo, espaço ou lugar social, sentem-se semelhantes, não conseguem identificar com clareza quais modelos estão seguindo, imitam secretamente o que admiram, plagiam, são movidas pela inveja... E o que tudo isso revela? Que existe um número muito grande de pessoas enredadas nesta mimese negativa, sendo atraídas por modelos de desejo muito questionáveis, supostos gurus da escrita, do mundo editorial, do sucesso mercadológico de uma obra, da promessa de se tornarem escritoras bonitinhas de cafeteria ou escritores bigodudos de algum portal literário. Sendo mais direto, a gravidade dos gurus age sempre sobre pessoas que vivem na superfície dos desejos rasos, da busca por validação, prêmios literários e afins, mas que raramente são movidas por um desejo disruptivo, ou seja, por algo mais profundo e transcendente — um desejo que se encontra fora do sistema que estão inseridas.
Por esse motivo, prosperam figuras com promessas variadas, que se colocam como modelos de desejo, como guias capazes de realizar o que na realidade não é possível de ser realizado: a vivência de um desejo profundo ou a arte da escrita. Elas comumente se colocam como porta-vozes desses desejos, assumem o papel de mediadoras, de modelos a serem seguidos para "chegar onde chegaram", muitas vezes utilizando-se do discurso de que lutaram bastante, de que erraram, foram enganadas e agora, depois de beatificadas pela Grande Editora, estão aptas a benzer e distribuir as promissórias da beatificação para todos que seguirem o seu passo a passo pago em doze vezes sem juros.
Sendo honesto, publicar obras, seja por autopublicação, seja através de uma editora pequena, uma editora grande, significa somente a entrada num sistema de modelos instrumentalizados, pré-moldados, feitos para atender a demandas hoje muito condicionadas por algoritmos. E, claro, mais público ou menos público, mais artigos ou menos artigos circulando em mídias tradicionais, sem que em momento algum a relevância do valor de tudo isso seja questionado. E como poderia ser questionado se o modelo oculto de desejo que guia tudo isso é meramente... o espetáculo?
Romper com esses mediadores do desejo interno é o mesmo que tentar acabar com a idolatria: tarefa ingrata. Você passa a ser acusado daquilo que está combatendo: de ser invejoso, de não apoiar uma pessoa que está "ajudando" a realizar os desejos alheios, que está muitas vezes falando pelos inexperientes e invisíveis do mundo editorial, de ser de direita, fascista, esquerdista...
De fato os gurus (podemos chamá-los pelo nome verdadeiro: os especialistas) falam em nome de muitos, colocam-se agora como mediadores entre as editoras independentes e o mundo dos autores explorados, que para serem "escritores de verdade" precisam dos seus cursos de escrita, cursos de venda de livros, de leitura de contratos, de dancinhas do Tik Tok, de como beber e segurar a taça de vinho no lançamento — tudo ideologicamente justificado. E profundamente afastado da escrita.
É a luta do último contra o penúltimo, na qual a medição dos valores é feita por uma fatia de bolo que milhares desejam. Romper esse ciclo destrutivo não é melhorar as condições de rivalidade, polir as jaulas e encenar esse puritanismo salvacionista contra o mundo malvado (invenção quixotesca) das editoras pequenas, querendo submetê-las a uma ideia autocentrada e autoritária de transparência. Coisa que, aliás, nenhuma editora grande possui: a maioria sequer aceita originais e trata qualquer assunto relacionado a isso como uma violência, um incômodo, uma importunação por parte de alguém que quer enviar um "original não solicitado"... Vocês conseguem imaginar uma autora pedindo que os conglomerados da Companhia das Letras e da Record com todos os seus selos editoriais enviem seus contratos para ela fazer uma mediação com os autores, para ser a juíza de paz da transparência?
O feitiço dos likes pode ser muito poderoso, pode criar uma miragem naquilo que temos de discernir, sobretudo quando se trata dos modelos que temos de rejeitar para realizarmos um deslocamento do centro de gravidade. Esta tarefa ainda está por fazer e depende de modelos melhores e transcendentes.




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