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Os benefícios de não ser lido

Se eu tivesse que nomear um demônio da escrita, diria que o principal é aquele que se nutre da insegurança de não ser lido. Se ele não nos assombra, então o caminho está livre. Mas para onde?

É quase um fato que pessoas muita próximas de mim talvez não dêem a mínima atenção para o que escrevo, ou deixam para outro momento, ou preferem (com razão) ler algo mais consagrado segundo o sistema de validação cultural que estamos submetidos. O que será então das que nem me conhecem? Das que nem sequer cruzaram com um livro ou texto que escrevi? Com alguns elogios pode-se conseguir alguns leitores, mas os elogios são como os deuses e precisam de uma alimentação constante, de um protocolo de retribuição que nem sempre se está disposto a cumprir. Se você é avesso às bajulações, entenderá o que digo. Se gostar delas, também.

Nessa complexa trama, foi-me sugerido que começasse por fazer análises de outras obras, de outros escritores e escritoras, para posteriormente dizer aquilo que seria propriamente minha contribuição, como numa espécie de ascese que iria do acanhado observador para o acanhado analisador, depois do menos acanhado analisador para o confiante crítico e influenciador, para depois, sabe-se lá quando, escrever algo "meu".

Isto tudo exigiria não se sabe quantos anos de vida, quantos acenos de autorização, quantos desses "certificados invisíveis" que se obtém por conversas informais. Sexo?Talvez. Fofoca? Certamente.

Ou então quem sabe o destino me lance com sua catapulta em um lugar no qual eu possa comprovar o caráter abusivo de alguém do mundo editorial e as coisas se encaminhem com o selo da reparação.

Na minha caixa de surpresas tenho também emails, mensagens de abusos e perseguições que sofri, de pessoas que ajudei a organizar livros e escritos e que hoje celebram a minha suposta invisibilidade. A calúnia entre certos escritores e escritoras é realmente uma força de união. Poderia, como já pensei, emoldurar tudo isso com um texto em redes sociais, fazer uma carrossel de provas, vingar-me...

Tudo é possível, mas nem tudo me convém.

E assim, tendo espanado o pequeno demônio através de mil sortilégios ( e os sortilégios também precisam ser alimentados constantemente), estabeleci o lugar de minha goécia. Por saber o nome dos demônios, pode-se aprisioná-los e utilizá-los para nossos propósitos, mas o segredo de funcionamento do propósito é que ele – o propósito – permaneça sem ser pronunciado. É um segredo que guardamos em nosso olhar. É algo que as pessoas sentirão como a desconfiança de que sabemos algo e que será impossível extrair. E, claro, não é preciso dizer que ninguém quer extrair algo de alguém completamente obscuro e sem relevância (exceto a mão-de-obra). O escritorzinho que sou precisa "saber o seu lugar" na engrenagem e contentar-se com isso. Eis o ponto a que gostaria de chegar.

Dar às pessoas a possibilidade de extrair o que elas desejam é uma pequena garantia de sucesso. Tudo corre muito bem. A pessoa quer algo de antemão, você entrega. Ela quer confirmar o que acredita, você oferece o argumento mais belo para seus ouvidos. E assim a coisa segue, reproduzindo uma lógica de prateleira de supermercado. Exceto que ninguém (pelo menos nunca soube) se gaba de ter pego algo na prateleira de supermercado, situação oposta ao tipo de nutrição que o conhecimento proporciona. O saber tem um tipo de engorda acumulativa, exibicionista e tola – o tipo de coisa que a publicidade mais gosta, porque ao mesmo tempo que ele é efêmero, pode ser vendido como a coisa mais durável que existe e que continua funcionando mesmo que coisas ao redor dele comecem a quebrar. Ele pode inclusive ser vendido como o remédio para essas coisas quebradas. Mas não vejo as pessoas comprando um conhecimento para quebrarem a si mesmas, para se despedaçarem tal qual uma figura louca que entrasse no supermercado e começasse a atirar todos os produtos no chão. Esse tipo de saber, de comportamento, não vende. Se for empacotado com o nome "revolução", daí se torna mais palatável. Agora, quebrar a si mesmo pelo puro gesto e curiosidade de ver o que acontece, isso é raro. É como quando perguntaram a Sócrates por que ele queria aprender a tocar flauta sendo que estava condenado à morte e ele simplesmente respondeu: "Para aprender". Para usar um termo mais exagerado, significa "para nada".

Será que é isso que queria dizer que considero como o maior benefício de não ser lido? E veja que eu não estou me colocando como uma vítima do monólogo. É o contrário disso. Estou me rebelando contra o rótulo de uma plateia vazia, de um lugar onde a palavra fica girando, girando e volta ao mesmo lugar. Esse lugar, muito conveniente por sinal, é uma arma de dissuasão. É a tentativa de convencer que certos "nadas" não valem a pena, quando na verdade é justamente o nada que permite o lado lúdico da liberdade, a face oracular da liberdade, o erro mais absurdo da liberdade sem nenhuma condenação.

Só estou tentando dizer que abraçar o seu nada pessoal é possivelmente a maior fonte de força contra os modelos de dissuasão que nos rodeiam. Pense em alguém que não tem nada a perder e essa seria uma comparação aproximada. Ainda assim é insuficiente, porque o nada vai além disso e como disse muito sabiamente (acho que) Alejandra Pizarnik: "O poeta não teme o nada".


Outro benefício em não ser lido é que você não precisará negar uma primeira fase imatura de sua criação. Sabe aquele escrito vergonhoso que uma revista não menos vergonhosa publicou com certo destaque? É desse mesmo que estou falando. Se ninguém está ocupado garimpando aquilo que você fez e está fazendo, então a boa notícia é que você está completamente desimpedido e liberado de ter de responder sobre seu passado pregresso. Seu crime textual já prescreveu. O rio Lete já o incorporou nas águas escuras do submundo. Nos tempos que vivemos isso é uma dádiva, porque na temporada de caça às bruxas que estamos até seu avô eugenista pode ser invocado como argumento para sua punição, o que quer dizer, afinal, que nenhum argumento importa. O que importa é o seu deslize, mas como você não é lido, então não há deslize e nem punição. Você ainda é um criminoso invisível, protegido pela sua ausência de leitores.

Depois de tudo isso (se você me leu), deve estar se perguntando se não estou guardando algum ressentimento em relação ao circuito de leitores, escritores e se eu não devia fazer alguma terapia pra tentar lidar melhor com isso. É claro. Tenho que concordar. Você está sempre certo, não é?





 
 
 

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