Tabu or not Taboo?
- E.A. Meneghin
- 10 de mai. de 2025
- 4 min de leitura
Ainda que o escritor finja inocência, é quase impossível escrever sem transgredir algum tabu ou valor estabelecido, porque da mesma maneira que não existe um tabu universal e absoluto, também não é possível existir um texto unânime e que agrade a todos os públicos.
Romper um tabu é gesto perigoso, carregado com as punições que são reservadas aos profanos. Inclusive a palavra profano significa em sua origem o que está "fora do templo", ou seja, o que não penetra no Sagrado. A escrita, por ser uma arte de travessias, de Hermes, de Mercúrio, está mais intimamente ligada ao trickster, ou se preferirem, ao trapaceiro – figura que está dentro e fora do templo, ao mesmo tempo.
Por sua habilidade de transição ele age como carcereiro e xamã, evoca o inominável para prendê-lo no papel. Esse talento dá forma ao que não deveria ter forma, exceto enquanto proibição, e ergue contornos onde só havia uma pulsação obscura. Dentre suas trapaças medicinais encontra-se a cura para a gagueira da gramática, não a partir de sua supressão, mas a partir de seu excesso. O trickster sabe a dimensão dos tabus e ritos que o cercam e só por isso consegue fazer deles motivo de piada ou tragédia. Essa atitude, longe de ser apenas zombaria, é a própria condição que alimenta a tensão perpétua entre mistério e revelação. Para ser mais claro, ao despertar hoje algo que a cultura adormeceu, liberando-a, ele cria uma proibição no amanhã.
É a mesma história de tantos lugares que vieram abaixo: sobre suas ruínas ergue-se um altar da memória que exigirá para sua adoração uma série de novos tabus, como por exemplo, não fazer selfies em Auschwitz ou Treblinka. Dei este exemplo para que a força do tabu possa ser sentida com mais realidade, já que quase sempre a postura de quem olha para o tabu coloca-se numa visão superior, como se ele estivesse distante.
Esta talvez seja uma das características mais curiosas da cegueira em relação aos tabus: eles não habitam o campo das grandes proibições, mas se escondem nos pequenos hábitos, nos gestos automáticos da vida comum. Sentar-se à mesa e comer um pedaço de carne assada parece banal; no entanto, se a carne em questão for de um cão, o seu querido pet, o mesmo ato torna-se abominável. Não há diferença ontológica entre o bife e o animal de estimação — a diferença é simbólica. Neste caso é o afeto que torna um corpo sagrado. A linguagem que o cerca recobre o corpo adorado com um manto de intocabilidade. E assim o tabu nasce: onde há sacralização, há repulsa à profanação.
O famoso "narcisismo das pequenas diferenças": os grupos mais semelhantes entre si são os que tendem a se odiar com mais fervor. A mínima diferença é inflada até parecer um abismo intransponível, pois a semelhança excessiva ameaça o eu com o colapso da identidade. Talvez, de modo semelhante, os tabus mais viscerais não sejam os que nos são radicalmente estranhos, mas os que estão camuflados naquilo que nos é familiar demais. Comer algumas carnes é aceitável, mas carne de gato é um escândalo. Não porque o ato seja essencialmente distinto, mas porque a semelhança nos constrange e a repulsa é o véu que cobre essa vergonha.
Mesmo aqueles que recusam a carne, em nome da ética ou da compaixão, frequentemente não escapam à armadilha do narcisismo das pequenas diferenças. Vegetarianos e veganos, ao crerem ter cortado o elo com a violência, mantêm muitas vezes intacta a hierarquia simbólica da vida. Apesar dos discursos bonitos, eles falseiam e ocultam a diferença. O grilo ainda vale menos que o gato, o molusco mais que a planta, e o fungo mais que o átomo. Além de tudo julgam ter eliminado a contradição, mas seguem à mesa com os mesmos rituais civilizatórios: comem com garfo e colher, em silêncio respeitável, sem gritar, sem babar, sem peidar na sopa. O tabu já não está na carne, está no modo de estar à mesa. Porque comer, esse ato primal, foi sequestrado pelo decoro. Ainda que o prato seja puro, o gesto continua contaminado por séculos de vergonha do corpo. E o desejo de pureza moral frequentemente é apenas o desejo de se distinguir, de se ver melhor que o outro, mesmo que por um detalhe minúsculo, quase invisível, mas essencial para sustentar o eu.
Torna-se evidente que não há vida humana em nenhuma coletividade que possa existir sem tabus. Todas as sociedades, grupos, associações, clubes, mesas de bar, encontros de amigos e primeiros encontros, possuem seus tabus prediletos. E é melhor que eles permaneçam nas câmaras da inconsciência, sob o risco de perdermos a delícia de estarmos sob sua tensão. Dizer tudo, transgredir tudo, costuma não levar a nada, exceto à cadeia ou ao mundo glacial do psiquiatra.
E é nesse ponto que ocorre o paradoxo mais fértil da linguagem: quando a escrita renuncia à compulsão de dizer tudo, quando recusa o fanatismo da revelação total, é exatamente aí que ela começa a revelar. Não porque esconda um segredo, mas porque cria um espaço interior onde o leitor é convidado a escutar o que não está dito. A verdadeira revelação nasce do recuo, do não dito que reverbera mais forte que qualquer confissão. Pois há verdades que só florescem na penumbra, como certas plantas raras que murcham sob o sol direto.




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