Voz de google
- E.A. Meneghin
- 15 de mar. de 2025
- 3 min de leitura
Tenho observado um fenômeno curioso: a voz de algumas pessoas tem ficado parecida com a voz do google. Nenhum entonação emocional. Nenhuma pausa. Um descarrilamento de trem bala da respiração. Parece que o pré-requisito para certas falas, em certos espaços, é justamente um tipo específico de ansiedade, a ansiedade que carrega quase sempre um tipo de solução para um problema que está na boca do povo e, como sabemos, a boca do povo tem o tamanho de cinco minutos, daí a urgência e a pedagogia da voz de google.
Não seria estranho supor que o efeito de uma voz mais agressiva, como a dos líderes protofascistas de nosso tempo, soe como mais natural do que essas vozes treinadas para falar por faixa etária. Qualquer pessoa que seja um pouco mais imune aos discursos moralizantes percebe claramente uma voz sem espontaneidade, uma voz que carrega um certo espírito de lei e profecia, ou seja, desprovida de intimidade. A voz agressiva soa mais "próxima" porque nela todo o corpo se faz presente, se desnuda. Também porque é um sentimento mais básico. É mais fácil unir cem pessoas para linchar um indivíduo do que cem pessoas para deliberar sobre uma resolução de condomínio. Há inclusive quem considere que quanto menos íntima for a voz, maior seria o seu potencial de autoridade. Nesse sentido, artigos acadêmicos, teses e afins permanecem confinados à uma linguagem autoritativa, enquanto a publicidade — que é quem conduz a narrativa de nosso tempo — liberou-se através de uma centena de linguagens cujo alcance é, até o momento, inigualável. Talvez isso explique porque o robotismo da voz está em alta, se considerarmos o medo e a insegurança (até mesmo o horror) que alguns sentem da própria voz e o quanto toda a publicidade depende desse medo para que possa ofertar uma voz própria.
Ter a própria voz, encontrar a própria voz, não apenas no sentido literal e vocálico, mas no seu sentido ampliado: ter um perfil destacado em redes sociais, tornar-se um influencer, ou mesmo poder dizer asneiras de todo tipo para engajar, esse é o produto básico de qualquer curso de quinta categoria. Justamente porque esse é o ouro da mina. Esse é o meio e a mensagem. Entretanto, o topo não é acessível, mas é preciso manter a aparência religiosa de que qualquer um pode chegar lá produzindo o que um algoritmo mutante e oculto determinar.
Talvez isso seja já um pouco de passado. A voz robótica tem recebido cada vez mais investimentos, principalmente do que se convencionou chamar de inteligência artificial. Não creio, como já vi alguns suporem, que isso venha a extinguir o trabalho da voz humana, mas creio que vá operar algo muito mais complexo, que é o treinamento da voz humana. Diante das máquinas e do que elas prometem (e cumprem), a nossa voz terá de se adaptar para ser reconhecida.
Para os que nasceram, como eu, em um mundo sem internet e que viram a sua proliferação, o surgimento das redes, IA, etc., é relativamente fácil com um pouco de reflexão perceber a mudança vocálica que atravessamos, mas e para alguém que já nasceu inserido dentro desse universo tecnológico? Pensem nos bebês que escutam a voz monocórdica dos aplicativos de distração, nas aulas EAD com bonecos de IA, nos vídeos viralizados, e terão uma noção do ambiente que já nos obriga à adaptação.
É possível que essa seja mais uma das ambivalências insolúveis que caracterizam a modernidade e que continua sendo alimentada quer se escolha decretar ou não o seu fim. E se toda a cultura, política e relação humana reproduz e lucra com essas ambivalências, torna-se difícil encontrar nelas algum tipo de saída. Ademais, não acredito em saídas de emergência ou soluções. Porém acredito em alguns gestos.
Por exemplo, procurar e criar esferas de intimidade musical.
Não é somente o que o outro me diz, porque esse dizer pode ser somente mais um jargão bonito e aceito, mas é a melodia do outro, a melodia do seu dizer.
A sua música e não a voz de google.




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